segunda-feira, 29 de junho de 2009

28/12/1807

Nós vamos afundar, essa é a única certeza da minha vida. Hoje tá chovendo muito, MESMO. Queria que minha mãe estivesse aqui com a gente. Até que é bom chover um pouco, passa o calor, mas estou começando a ficar assustado já, parece que o céu quer acabar com a gente, destruir todos nossos navios e afundar a gente no mar. Eu nem consigo mais ver o navio da mamãe e os navios ingleses que estavam do nosso lado e atrás da gente. Aliás eu não consigo ver mais nada pela janela. Estou com um certo medo dessa chuva...tá legal, eu to com muito medo, parece muito que a gente vai afundar e nunca mais ninguém vai ver a gente, vão nos esquecer aqui para sempre. Podia ter uma ponte de Portugal para o Brasil, ai a gente não precisava vir pelo mar, é tão apavorante. No começo até que tava legal ficar pendurado na ponta do navio olhando para o mar, mas agora tem chovido tanto que eu tenho medo que enquanto eu esteja lá distraído olhando para baixo comece uma chuva repentina e me derrube no mar e ai o navio vai passar por cima de mim e eu vou morrer. Meio dramático eu sei, mas minhas esperanças de chegar no Brasil agora são poucas, faz tantas semanas que estamos aqui que eu acho que nós vamos ficar aqui para sempre, essa vai ser nossa nova casa, fora esse medo que me persegue agora. O mastro do nosso navio está apodrecendo e eu ouvi algumas pessoas dizendo que ele vai cair logo, logo...como é que eu não vou ficar com medo? Tá um caos bem grande aqui, ta tudo molhado, to com medo até de andar por ai, cair e morrer. Agora é que eu fico mais intrigado ainda..por que a gente fugiu de Portugal afinal? Se tivéssemos ficado lá e lutado, não estaríamos passando por tudo isso agora e ainda teríamos a glória de derrotar o grande e invencível Napoleão Bonaparte. Se eu pudesse eu voltaria lá agora e lutaria com ele, mas eu não consigo nem sair do quarto.
Eu vou dormir, já é bem tarde e é só o que eu tenho feito mesmo..dormido, dormido dormido (como se desse para fazer outra coisa).

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