quarta-feira, 1 de julho de 2009

1808


22/01/1808

Nós não vamos desembarcar agora. Coisa do meu pai de novo, ele disse que nós temos que esperar um tal de João da Gama não sei o que, o Conde da Ponte, para vir nos cumprimentar, parece que o homem nem sabe que nós chegamos, vê se pode...maior falta de comunicação desse povo.A gente bem que podia ir lá na casa dele e fazer uma grande surpresa, pra eu poder comer bastante. Que frescura dos infernos. Mas tudo bem, o importante é que nós chegamos bem, felizes...com fome, fedidos, com calor e outras coisas. Como é que nós vamos cumprimentar o tal João do não sei o que fedendo? Meu pai não pensa nessas coisas não? Vai ser mais embaraçoso encontrá-lo fedido do que ir encontrá-lo e não ter que ficar aqui esperando ele vir nos receber. São coisas que eu nunca vou entender, mas tudo bem, não faço questão de saber também. Descobri que a gente vai ter que viajar mais daqui uns dias,meu pai resolveu passar uns dias aqui em...Salvador, eu acho, mas depois nós vamos ter que ir para o Rio de Janeiro porque é lá que nós vamos morar. Espero que pelo menos lá, estejam nos esperando com flores, água e muita comida..de todos os tipos, cores, formatos, tamanhos e cheiros. Pode ser qualquer coisa mesmo. Se bem que até lá eu já vou ter comido bastante e vou estar enjoado.
Parece que agora é só esperar o tal João vir para o nosso navio nos cumprimentar e ai nós podemos finalmente sair daqui para comer. Nossa viagem chegou ao fim graças ao Senhor, foi divertido até, mas eu prefiro a terra firme mesmo, é mais seguro e mais..estável. Já vi que o Brasil é um lugar muito bonito, e espero que seja legal e meu pai consiga tudo que ele deseja aqui, e eu também.

22/01/1808

Eu estou vendo o Brasil, agora...nesse momento, inacreditável eu sei. O Brasil existe, eu realmente já tinha perdido as esperanças e ai está o Brasil, o grande Brasil..a gente está chegando, daqui a alguns minutos eu tenho certeza que vamos parar no porto brasileiro. Eu to tão feliz que mal consigo parar quieto. Pensar que a gente vai sair desse navio, eu vou poder comer alguma comida de verdade, beber alguma água de verdade, inacreditável...inacreditável. Achei que essa viagem nunca mais ia acabar (literalmente). Eu vou lá ver o que está acontecendo e mais tarde eu escrevo mais.

terça-feira, 30 de junho de 2009

09/01/1808

Já estamos no ano novo e nada de Brasil ainda, ou o Brasil é realmente longe, ou nem existe e a gente tá sendo levado para o fim do mundo e vão enterrar a gente no fundo do oceano para ninguém nunca mais nos ver e esquecerem de nós, isso faz bastante sentido, o Brasil não existe com certeza. Teve uma pequena comemoração aqui por causa da mudança de ano, mas ta difícil até de se mexer, então já imaginou fazer uma grande festa aqui,né? Eu com certeza iria me perder e iam demorar dias para me achar e ai sim que eu nunca conheceria o tal Brasil . Eu tenho ouvido muitas conversas por ai,mas acho que as pessoas estão começando a perceber que sempre que elas vão conversar algo sério e baixinho eu apareço para beber água ou para...ficar parado lá. Ouvi dizer que nós ficamos muitos dias perdidos, inclusive o dia que eu escrevi pela última vez. Estava chovendo tanto que os navios se perderam uns dos outros.Mas agora ta tudo melhor..pelo menos eu acho, eu ainda não fico muito tempo pendurado na ponta do navio olhando para o mar, ainda estou de mal com São Pedro, e por isso mesmo ele pode resolver se vingar de mim e mandar uma tempestade terrível com raios e trovões e ai eu vou morrer afogado e queimado com o raio. Mas agora está melhor, ai as vezes até dá pra ficar lá pendurado, mas eu estou sempre de olhos abertos e bem virados para o céu. Tem umas ondas enormes aqui, parece que elas vão comer o navio inteiro e nos levar para conhecer as profundezas desconhecidas do oceano, as vezes eu tenho que me segurar para não cair para trás. Um dia desses eu estava distraído subindo e descendo escadas e o navio passou por uma onda bem na hora que eu ia começar a descer e eu rolei escada abaixo, sorte que ninguém viu, eu acho. Eu ouvi dizer que as mulheres nos outros navios estão raspando suas cabeças por causa de piolhos...como eu queria estar lá para ver..mas meu pai não deixa eu ir pra lá e me mandou parar de encher o saco dele com isso, como se tivesse outra coisa para fazer, mas meu pai ainda está meio maluco com isso tudo então eu preferi deixar ele em paz um pouco...mas ele bem que podia tomar um banho, arrumar aquele cabelo e lavar aquelas roupas com cheiro de frango. E eu tenho certeza que ele também queria estar lá pra ver as mulheres sem cabelo, mas eu não discuto com ele.
Bom, espero que nosso fim esteja próximo..pelo menos não vamos sofrer tanto, tomara que até lá eu faça as pazes com São Pedro para poder descansar em paz, amém.

Corte Portuguesa


segunda-feira, 29 de junho de 2009

28/12/1807

Nós vamos afundar, essa é a única certeza da minha vida. Hoje tá chovendo muito, MESMO. Queria que minha mãe estivesse aqui com a gente. Até que é bom chover um pouco, passa o calor, mas estou começando a ficar assustado já, parece que o céu quer acabar com a gente, destruir todos nossos navios e afundar a gente no mar. Eu nem consigo mais ver o navio da mamãe e os navios ingleses que estavam do nosso lado e atrás da gente. Aliás eu não consigo ver mais nada pela janela. Estou com um certo medo dessa chuva...tá legal, eu to com muito medo, parece muito que a gente vai afundar e nunca mais ninguém vai ver a gente, vão nos esquecer aqui para sempre. Podia ter uma ponte de Portugal para o Brasil, ai a gente não precisava vir pelo mar, é tão apavorante. No começo até que tava legal ficar pendurado na ponta do navio olhando para o mar, mas agora tem chovido tanto que eu tenho medo que enquanto eu esteja lá distraído olhando para baixo comece uma chuva repentina e me derrube no mar e ai o navio vai passar por cima de mim e eu vou morrer. Meio dramático eu sei, mas minhas esperanças de chegar no Brasil agora são poucas, faz tantas semanas que estamos aqui que eu acho que nós vamos ficar aqui para sempre, essa vai ser nossa nova casa, fora esse medo que me persegue agora. O mastro do nosso navio está apodrecendo e eu ouvi algumas pessoas dizendo que ele vai cair logo, logo...como é que eu não vou ficar com medo? Tá um caos bem grande aqui, ta tudo molhado, to com medo até de andar por ai, cair e morrer. Agora é que eu fico mais intrigado ainda..por que a gente fugiu de Portugal afinal? Se tivéssemos ficado lá e lutado, não estaríamos passando por tudo isso agora e ainda teríamos a glória de derrotar o grande e invencível Napoleão Bonaparte. Se eu pudesse eu voltaria lá agora e lutaria com ele, mas eu não consigo nem sair do quarto.
Eu vou dormir, já é bem tarde e é só o que eu tenho feito mesmo..dormido, dormido dormido (como se desse para fazer outra coisa).

sexta-feira, 26 de junho de 2009

15/12/1807

Fazia tempo que eu não escrevia, fiquei com preguiça e esqueci. Hoje está muito quente, da última vez que eu escrevi estava quente.. agora está MUITO, realmente quente. E eu só tenho roupa de frio, o que está me dando muito calor, não tenho onde me trocar e vou cozinhar nessa roupa. Está faltando água aqui, a que nós temos está cheia de fungos e umas coisas verdes. Eu não entendo por que não bebemos água do mar, eu sei que é salgada mais é água não é? Eu conversei com muitas pessoas sobre isso mas não entendi muito. A comida daqui também é bem gosmenta, parece o meu catarro, mas é bom, é só fechar os olhos e imaginar um arrozinho com camarão, uma bacalhoada, hmmmmmmm. Estou com saudade de casa, mas eu espero que estejamos chegando, estou começando a ficar curioso para saber com é o Brasil. Eu sei que lá é quente, mas se eu for sentir mais calor lá do que eu estou sentindo aqui, por favor vamos voltar por que nós vamos cozinhar com certeza. Mas tudo bem, eu estou me divertindo muito apesar de tudo.. acho que meus pais e minha vó não estão se divertindo muito. Minha mãe e minha vó não queriam vir de jeito nenhum, tudo que elas podiam fazer para ficar, elas fizeram..já meu pai, eu não sei, ele deve estar feliz, pelo menos agora estamos todos seguros.